"Dias póstumos"
No dia que nasci, morreu um homem, nem sei seu nome, rua, sua face, dessa me lembro um pouco, mas eu nasci e ele morreu, foi como uma metade de mim, já no meu nascimento, nasci incompleto, perdido entre as dores do parto e da partida, palavras próximas e destoantes...Ainda gritava sem voz quando o palma da mão me lavou o sangue e, a pele do homem morto exalava aos poucos o cheiro da morte...O cheiro de um recém-nascido lembra o cheiro de um morto há poucas horas, ou seria o contrário. A cada ano que completo minutos de vidas, se comemora a saudade do morto no mesmo minuto que o meu, mesmo sendo a viúva, o filho, os papéis, ou até mesmo o esquecimento, esse é o maior prêmio a um morto, não me seria grato ser rezado por 32 ou 23 anos, sem motivos, afinal no tempo em que me distâncio do meu nascimento me aproximo do nascimento do próximo réu, esse nascerá para que eu morra e eu morrerei para ser esquecido, temo somente os póstumos, não preciso deles...
Victor Rodrigues
Foto:Gentil Barreira
Escrito por Victor Rodrigues às 11:15 AM
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"Mal me quer ou bem me quer"

Releio o contorno da sombra na parede
talvez assim descobrir quantos
bem me quer ou mal me quer
necessito para despetalar o girassol em pardo
esquecido na sala que leva a porta da partida
Recorto recortes de bilhetes amassados
neles só restou teus gestos distantes
palavras soltas igualando nosso tempo
Era como ter teu rosto perdido no caminho do corredor
completando o resto da fotografia pendurada na parede
Bem que você me queria bem
Mal querendo esquecer o passado
Victor Rodrigues
Foto:Andrei Gurgel
Escrito por Victor Rodrigues às 09:09 AM
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