Botequim Poético


"Meninice de Temporão"

 

Eu, quando menino, aprendi a me contentar com meus limites...Balançava no toco amarrado na árvore três vezes para passar a vez ao tempo, que nunca restava, comia os legumes verdes certo da sobremesa, que nunca comia, rendia meus pés descalços, que nunca se acontumaram com meu sapato...Minha infância foi cercada de ausências femininas e meu pai se perdeu nas palavras...Só me restava as vozes do vento, que me contavam o que tinha que escutar, para suportar meu isolamento de mim mesmo...Fui carrasco, algozei meus dias de estimação, insistindo em ser infantil em minha meninice de temporão...

 

Victor Rodrigues

Atrás do Balcão



 Escrito por Victor Rodrigues às 04:04 PM
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"Sem eira nem Beira"

Quiz ser criança na minha infância

fizeram foi rir de minha ousadia

Hoje quero ser mulher

riem de minha irônia

Aí me vejo a rezar

talvez para nem ser feliz

somente para se sentir ouvida

Me sento no quarto que nos pertenceu

Acendo as velas no escuro

iluminando minhas lembranças de véspera

Mastigo o resto do sono

anos acumulados nas madrugadas sem horas

Me limito a esperar minha ausência

Partida breve

Sem eira nem beira

 

Victor Rodrigues

Foto/fonte: Fao Carreira

 



 Escrito por Victor Rodrigues às 11:56 AM
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"Reflexos de Janelas"

 

Minhas janelas sempre insistem em mostrar meus reflexos

Por isso as cubro com cortinas

esquecendo de me cobrar imagens

Aqui me encontro em um quarto desconhecido

sinicamente montado para agradar meus olhos

porém desses só lhes restam a cegueira

O tempo é úmido

solto entre minha ansia da volta ao breve

e o erro de retornar ao incógnito.

Meus cadernos de infância já me diziam

que o que alimenta meu súbito abandono

é minha falta de começo...

 

Ao Théo, O Centenário...

 

Victor Rodrigues



 Escrito por Victor Rodrigues às 07:52 PM
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"Cartas à Maria Airam"

“Farrapos de Grinaldas”

 

Ofusca os sentidos das palavras

Engrinalda os verbos com flores

Mistifica mulher promessa

Gasta rastro de passadas

Ressalta moedas de um verso

Fica na insana probresa

de linguagens singular

Loucura de um morro

em movimentos constantes

Miragens de um homem

sem claros relances

Rejura tolos sonetos

de um velho em seu andar rasgado

á cadeira caquética

Sacrifica fotografias esquecidas

em fundos de gavetas soltas

Vê teus sentidos ofuscados

por grinaldas de farrapos

Cavalos topázios alados

que voam ao encontro de virgens estéricas

 

Victor Rodrigues

 

 



 Escrito por Victor Rodrigues às 11:58 AM
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"Retratos Maculados"

Maculei teu retrato

Dependurado na sala de nossas noites

Ignorei tua insistência sã

Esgotei minha saliva no diário de tuas horas

Acreditei na tua bondade,

quase enjoante

úmida de nossos banhos corridos

Corrompi teu olhar ausente

tímido, deitado nu em meu corpo

despido de tuas brigas...

Até ontem só me restava herdar teu nome

Sentado no colo de tuas partidas

 

Victor Rodrigues

 



 Escrito por Victor Rodrigues às 12:05 PM
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"Casaco de Teresa"

 

Teresa parou naquela tarde para escutar seus passos, suaves, no tapete que percorria todo o corredor banhado de sol. Ele já sentia frio, mas Teresa insistia em calar seus dedos. Teresa aprendera na noite anterior que praticava altruímo, mas rasgara a página do dicionário, para não ter que aprender, que tentativas de ser egoísta, morreram na descanço de seus disfarces. Arrumou o casaco vermelho prediléto na beira do chão, combinou-o com sua xícara de chá e um cinto emprestado e o deixou sorrindo, até esse chegar ao choro. Teresa escutava mais as vozes alheias, que a de amigos decorados de ausências. Ela se alimentava do gaiato lavando a moça do fado com sua lábia, manha de rapaz de morro. Teresa não se contentava em dasafiar seus hábitos hostis. Saiu no meio da música, arrancando olhares dos outros que perderam-se na ida de Teresa

 

"Teresa se vê alí há quatro anos, usando o mesmo casaco, lavando o mesmo rosto, talvez feliz e o que lhe falta é o que não fizera antes"

 

Victor Rodrigues



 Escrito por Victor Rodrigues às 05:08 AM
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"Flores naïve"

Eu sonhei com flores desbotadas

Seu cheiro era meigo, quase agredoce

Seus suspiros eram naïve, cândido

 

Meu rosto insistia em mudar de face

Resgatar frases soltas em esquinas

Molhadas por chuvas de laços correntes      

 

Só quiz confirmar suas cores

Colher suas petálas esbranquiçadas

 

“Aprendi a gostar de flores quando aceitei meu feminino”

 

Victor Rodrigues



 Escrito por Victor Rodrigues às 11:09 PM
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"Livros de estantes cruas"

 

 

Me desacostumei de ler meus livros

Eles se calam na estante crua

Colhendo meus passos apressados

com suas orelhas viradas

Nascidas de meus descuidos

Sabem contar suas histórias

talvez melhor que seus autores ou eu

Em certa altura deixam de ser cogitados

Dalí só assistem espetáculos corriqueiros,

nódoas do meu dia-a-dia,

coloridas pelo dia e pela noite

Meus livros e seus sorrisos amarelos

desistiram de se mostrar presentes

 

Victor Rodrigues



 Escrito por Victor Rodrigues às 11:47 AM
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"Cartas à Maria Airam"

 

O quarto texto: 

 

Narciso´s

 

Correr ao longe com olhos que buscam desertos

Lutar contra todos por meio de sonhos

Conquistar sábias palavras no dicionário do mundo

Mudar sim e lapidar o coração sem temer

Voar alto e pousar tão perto

Mostrar com olhos o azulado mundo

Criar com pedras arranha-céus

Sumir nas linhas do tempo invisível

Citar o tempo ao vento sem rumo

Mudar o vento com mentiras do tempo

Morrer para homens sem face

Nascer para paredes sem disfarce

Andar sorrindo pelas estradas do passo

Morar sozinho na busca do perdido

Achar sem palavras a alma congênita

Criar uma lenda que reflita no espelho

 

Nascer frente ao lago com o reflexo do rosto

Morrer pelas mãos da água refletida

Eternizar teu olhar por quem chorará por ti

que de nós Narciso`s

sentiu o amor

 

Victor Rodrigues

 



 Escrito por Victor Rodrigues às 11:04 PM
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"Tardes de Abril"

Refresco minhas tardes de abril

de céus claros e árvores núas

trancado em teus lenções de pedra

sorrindo das noites de serenatas

a moda de Ravel e seus amores

 

Teu invulgar instrumento de cordas

atua em meus ouvidos moucos

de grávidos anseios particulares

 

Requento meus modos de te gabar

rabiscando mentiras de sonos

na parede de dentro do corredor

enredo teus mogorins em destaque

nas preteleiras de teu jardim sem flores

 

Victor Rodrigues



 Escrito por Victor Rodrigues às 03:41 AM
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"Retalhos de palavras"

 

Contente aprecio teus retalhos de palavras
Minha tetativa não passa de certezas passadas
já presenciadas por minhas vindas de surpresa
Tempo para cafés pretos corridos
de resguardo em teu sofá de sonhos
Corro por tua varanda descalço
Recitando tua veda poética, pagã
Me acostumei com teu nome
essa cicatriz originada por nossos cordões
no despertar de dias e noites

 

Adelaide Amorim do "Umbigo do Sonho"

leva toda a sua cumplicidade literária à casa nova

e eu apresento sua nova casa  aqui no Botequim

 

www.meublog.net/adelaideamorim/ 

 

Victor Rodrigues

 

 



 Escrito por Victor Rodrigues às 03:21 AM
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"Dados de Jardins"

 

Não quero que me diga o que fazer

Deixe de marcar meus convidados

Cale ao passar de avenidas

Sou tuas desculpas

Teu recado em papel não presta

Prefiro poucos bocados de palavras

Dados de teus jardins

                         Mesas sem assinaturas                       

Tente bater três vezes na minha porta

Certifiquece assim de minha presença

evitando me perder

 

Victor Rodrigues

 



 Escrito por Victor Rodrigues às 11:47 AM
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"Tatuagem de Teresa"

-Eu aprendi com você a calar meu silêncio na hora de respostas-

Repetia Teresa para sí mesma, irritada com o pólen esvoaçante não típico para o outono, que não desistia de seu nariz.Teresa andou na noite passada caminhos vistos de relance, como a sorte do toureiro. Desconheceu seu corpo, até o espelho que o sabia de cor, corou.A nova figura no seu busto via mais do que Teresa queria mostrar.Teresa não se arrependera de sua tatuagem, só desejava saber seu nome. Queria desafiar Pierre e seu contratempo, chorar de raiva, rí de suas covas á altura da boca, lembrar de suas despedidas sem volta, de promessas de banheira, do detalhe que já esquecera. Teresa andou de costas reconhecendo labirintos de sílabas

 

Victor Rodrigues



 Escrito por Victor Rodrigues às 10:29 PM
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