Ontem parei meus afazeres, para olhar minha velha câmera fotografica,pois hoje não a uso mais. Cansei da espera, dos riscos inevitáveis por causa do nervosismo do fotografo ao tirar a foto perfeita, que nunca será vista a não ser por meus olhos. Hoje a nego, coloquei-a no quarto como decoração. Um filme em negro e branco continua nela,esperando seu momento de liberdade, essa liberdade que é involuntária, mas prefiro esperar, não o revelar, como um segredo tolo, sádico.O moderno me cegou, alimentou minha ânsia pelo belo, perfeito, frio, talvez eterno.
Minha câmera chora calada. Seus soluços lembram seu “clik” na hora de registrar passados, enxuga suas lágrimas com pedaços de fatos mal tirados, recortados, que ela insistiu em surpreender. Suas únicas companhias se limitam, a um tabuleiro de xadres vazio, não habitado, que foi perdendo suas peças no decorrer do tempo, começando por sua rainha, discos de vinil que foram comprados e afanados pra não serem escutados, uma coleção de óculos de sol, que não saem a rua, são caseiros, aprenderam a se aconstumar com a poeira e meus Cds. Todas as vezes que insisto em não olhar ela alí naquele canto, reparo nas viagens que fizemos juntos, no momento em que por irônia do ônibus, alí a esqueci,mas não entrei em pânico, ao dar conta do vazio que reinava em meu ombro. Voltei a estação calmo, certo da perca insana. Mas ela foi encontrada, devolvida aos meus olhos incrédulos.Hoje ela cobra a minha volta a estação, reclama minha preoculpação de antes e se questiona sê ser vendida, seria a recompensa merecida. Finjo não escutar seus lamúrios e muitas vezes choro calado junta dela, sem que ela aproveite de minha falta de solidez.
Persisto em esquece-lá alí, como um troféo de vento, de nada
Victor Rodrigues